Violência contra a mulher: quando ela começa muito antes da agressão

Falar sobre feminicídio é falar sobre vidas interrompidas, mas também é falar sobre histórias de violência que, muitas vezes, começaram muito antes do crime.

Em 2025, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Isso significa uma média de mais de quatro mulheres assassinadas por dia. O dado chama ainda mais atenção porque acontece em um cenário de redução das mortes violentas intencionais em geral.

Mas existe algo importante por trás desse número: o feminicídio raramente pode ser compreendido apenas como um acontecimento isolado. Em muitos casos, ele é o desfecho de uma trajetória marcada por diferentes formas de violência.

A violência nem sempre começa com uma agressão física

Antes de uma mulher ser agredida fisicamente, podem existir outros sinais de violência que, aos poucos, passam a fazer parte da rotina.

Controle sobre as roupas, amizades e comportamentos. Ciúmes apresentados como demonstração de amor. Tentativas de afastamento de familiares e amigos. Humilhações. Ameaças. Chantagens. Desvalorização. Invasão da privacidade. Controle financeiro.

A violência psicológica pode ser especialmente difícil de reconhecer porque nem sempre deixa marcas visíveis.

Ela pode acontecer de maneira gradual, fazendo com que comportamentos abusivos sejam naturalizados ou até justificados pela própria vítima: “ele fez isso porque me ama”, “talvez eu esteja exagerando”, “eu preciso mudar para evitar uma briga”.

Pouco a pouco, a mulher pode começar a duvidar da própria percepção, perder a confiança em si mesma e sentir que precisa medir cada palavra ou atitude para evitar conflitos.

Quando o medo passa a fazer parte da rotina

Viver em uma relação marcada por violência pode afetar profundamente a saúde emocional.

Ansiedade, medo constante, insegurança, tristeza, baixa autoestima, isolamento e dificuldade para tomar decisões podem aparecer nesse contexto. A mulher pode deixar de reconhecer a si mesma e passar a organizar sua vida em função das reações do outro.

Por isso, é importante compreender que violência psicológica também é violência.

O fato de não existir uma agressão física naquele momento não significa que não exista sofrimento ou que a situação não seja grave.

Reconhecer também é uma forma de prevenir

Prevenir a violência contra a mulher passa pela capacidade de reconhecer seus diferentes sinais.

Passa também por acreditar na mulher que procura ajuda, acolher sem culpabilizar e evitar perguntas que coloquem sobre ela a responsabilidade pela violência que sofreu.

Frases como “por que você não terminou?”, “por que voltou?” ou “eu teria percebido antes” podem aumentar a culpa e o isolamento.

Em vez disso, podemos perguntar: “Como posso te ajudar?”

Uma rede de apoio pode fazer diferença. Ter alguém com quem conversar, ser ouvida sem julgamentos e encontrar informações sobre os caminhos possíveis pode ser um passo importante para romper o silêncio.

Nenhuma violência deve ser normalizada

Falar sobre violência contra a mulher não é falar apenas sobre os casos que chegam às manchetes. É também olhar para aquilo que acontece dentro de relacionamentos, famílias e espaços onde muitas vezes o abuso é invisibilizado.

É reconhecer que controle não é cuidado. Ciúme não é prova de amor. Humilhação não é uma discussão normal de casal. Medo não é parte obrigatória de um relacionamento.

E nenhuma mulher precisa esperar que a violência chegue ao extremo para considerar que aquilo que está vivendo merece atenção.

Escutar, acolher, acreditar e fortalecer redes de apoio também são formas de prevenção.

Se você ou alguém próximo está vivendo uma situação de violência, buscar apoio profissional e os serviços da rede de proteção pode ser um passo importante. Em situações de risco imediato, procure os serviços de emergência.

💜 Nenhuma mulher deveria precisar chegar ao limite para ser ouvida, acreditada e protegida.

Anne Griza | Psicóloga

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2026.

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